26 de novembro de 2012

Transvitrine: diversidade e igualdade

JEFF MACHADO COSTA
Especialista em visual merchandising, produtor e diretor artístico


Você não tem gostado da recente inclusão de casais homoafetivos em campanhas publicitárias? Então está na hora de você reconhecer e buscar eliminar sua homolesbotransfobia para que seu ponto de vista não se transforme em discurso de ódio disfarçado e defendido como liberdade de expressão e, principalmente, para que você possa estar preparado para a mais nova, justa e irreversível tendência do mercado: a igualdade de gêneros.

Ficou confuso? Pois bem, inicialmente deixe de lado seus princípios religiosos conservadores e entenda que todas as pessoas têm os mesmos direitos. Este é o primeiro passo para que sua loja atravesse a barreira do preconceito e proporcione uma maior receptividade, compreensão e realização às vontades, desejos e necessidades de seus clientes. É isso mesmo, chegou o tão esperado momento de você lojista ajudar a sociedade a quebrar padrões e permitir que cada um seja o que quiser ser.

Atualmente, existe um leque de possibilidades comportamentais e seu estabelecimento comercial deve ser o maior interessado em apoiar as novas expressões do comportamento humano, buscando prestar o melhor atendimento, evitando situações constrangedoras, preconceitos, bullying, humilhações e futuras questões judiciais a serem resolvidas. Ao não reconhecer essa nova tendência, quem sai perdendo é a loja, que acaba afastando esses novos clientes diversificados, sem falar que essa intolerância aos comportamentos emergentes mancha a imagem e a reputação da empresa.

Essa nova realidade não é resultado de uma “Ditadura Gay” – isso não existe, mas o surgimento de um novo tempo, no qual não existem mais cores e peças definidas para homens e mulheres. Aliás, é totalmente inadequado e deselegante perguntar se um determinado item é pra homem ou mulher. Meninas podem querer se vestir de azul e meninos de rosa. Na sua loja deve poder tudo! Não pode existir mais a antiga divisão entre peças masculinas e femininas, os artigos serão para todos.

Grandes lojas de departamento, nas principais capitais do mundo, já declararam o fim da seção masculina e da seção feminina em seus projetos de visual merchandising para as próximas temporadas. Seja por escolha, identificação, atitude, desejo ou fantasia, eis a grande fusão do guarda-roupa masculino com o feminino e o inverno é a estação ideal que proporciona a mistura de roupas e acessórios para compor os looks. 

Rótulos
O casaco era feminino; pois agora ele pode ser tranquilamente comprado por um homem heterossexual que busca uma peça mais justa e inusitada e isso não influencia em nada sua identidade de gênero, sexo biológico ou orientação sexual. Mas então ele é uma travesti? Um crossdresser? Não necessariamente, ele apenas optou por uma peça que tradicionalmente, no passado, era produzida apenas para mulheres e agora é destinada para consumidores em geral. A travesti compõe seu look inteiro feminino, ou não! As neo drags, por exemplo, compõem seus looks misturando peças femininas e masculinas! E assim os rótulos e as antigas formas de expressão do comportamento através das roupas, acessórios e outros itens de consumo cairão gradativamente, para a felicidade de todos, em especial para homens e mulheres transgêneros que, independente de cirurgia de readequação sexual, terão sua identidade de gênero reconhecida e respeitada.

Então é o fim da Família Margarina? Não! Cuidado com o que você fala! É o reconhecimento de que não existe apenas um modelo de família feliz, o reconhecimento de que não existe uma única forma de se comportar, vestir, consumir e amar. Na medida em que todas as pessoas são cidadãos e consumidores iguais, elas merecem o mesmo tratamento. O amor é maior do que tudo na busca da felicidade e no atendimento dos seus clientes. Mas como vão ficar as vitrines? Nada de definição! As vitrines serão um espaço infinito para a criatividade com possibilidades ainda maiores para valorizar e destacar produtos através de novos conceitos que continuarão realizando quem já é atendido e despertando o desejo e os sonhos daqueles que saíram da invisibilidade e passaram a ser incluídos e reconhecidos. Viva a diversidade!

* Ilustram o artigo imagens de visual merchandising da Agender, campanha neutra de gênero criada pela poderosa Selfridges, de Londres. Fazem parte da iniciativa cinco coleções unissex de quarenta de suas marcas regulares. Com a ação, a loja trocou os manequins femininos e masculinos de suas vitrines por figuras andróginas.

http://couroportal.couromoda.com/noticias/ler/transvitrine-diversidade-e-igualdade